- Projeto liderado pela Controlar e a Graphenest recebe investimento de 1,86 milhões de euros no âmbito do Portugal 2030
- Tecnologia terá impacto direto nos setores automóvel, aeroespacial, defesa e telecomunicações
- Força Aérea Portuguesa confirmada como parceira nos ensaios finais
Um consórcio de quatro entidades portuguesas lançou o projeto ASTRAL, com o objetivo de criar um material que atualmente só existe nos Estados Unidos e cuja composição é mantida sob segredo industrial. O projeto é liderado pela Controlar e pela Graphenest, única produtora de grafeno em Portugal, e conta com a participação do PIEP (Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros) e da Universidade de Aveiro.
Com um investimento de 1,86 milhões de euros financiado pelo Portugal 2030, o ASTRAL decorre entre janeiro de 2026 e dezembro de 2028 e está alinhado com a Estratégia Europeia para a Autonomia Tecnológica, num momento em que a Europa procura reduzir a dependência de fornecedores externos em setores críticos como a defesa, a mobilidade autónoma e as telecomunicações.
O objetivo do ASTRAL é desenvolver um material multicamada ultrafino e flexível, baseado em grafeno e em partículas magnéticas, capaz de absorver radiação eletromagnética em toda a gama de frequências usada pela indústria moderna, desde os radares automóveis até à comunicação 5G e aos sistemas militares.
Na prática, este material procura substituir as espumas piramidais volumosas que revestem as câmaras anecóicas por uma solução de menor espessura, adaptável a qualquer superfície. O mercado global destes materiais foi avaliado em 828 milhões de dólares em 2025, com crescimento previsto para 1,1 mil milhões em 2034. O mercado de câmaras anecóicas deve passar dos atuais 1,6 para 2,3 mil milhões de dólares até 2030.
O impacto do material desenvolvido no âmbito deste projeto estende-se por três setores estratégicos:
- Na indústria automóvel, o material responde à crescente necessidade de testar e calibrar radares ADAS (os sistemas de condução autónoma que operam a 77 GHz) que equipam milhões de veículos fabricados por clientes diretos do consórcio, como a Bosch, a Continental e a Borgwarner.
- Nas telecomunicações e eletrónica, este material oferece uma solução de blindagem eletromagnética leve e adaptável, essencial para o desenvolvimento de infraestruturas 5G e dispositivos de nova geração.
- Na defesa e aeroespacial, o impacto é particularmente relevante uma vez que esta tecnologia tem a capacidade de tornar drones e aeronaves menos detetáveis por radar, sendo esta capacidade um dos ativos estratégicos mais valiosos em contexto militar. Ao contrário dos revestimentos furtivos tradicionais, pesados e rígidos, este material irá adaptar-se a qualquer geometria de aeronave sem acrescentar peso nem comprometer o desempenho. Neste sentido, a Força Aérea Portuguesa pretende participar nos ensaios finais do projeto, com foco na aplicação em veículos aéreos não tripulados de perfil furtivo.
Em termos de proteção dos resultados, o projeto prevê registar pelo menos uma patente internacional. O consórcio está ainda alinhado com as prioridades europeias de investimento em materiais avançados para segurança e defesa, abrindo caminho a futuras parcerias estratégicas a nível europeu.
”O ASTRAL representa um passo decisivo para a Europa na conquista de autonomia tecnológica numa área até agora dominada pelos Estados Unidos. Portugal tem atualmente as competências e os parceiros certos para desenvolver esta tecnologia de raiz, e a Graphenest, com a sua capacidade industrial de produção de grafeno, está em posição única para tornar este material uma realidade industrial com impacto global.
Bruno FigueiredoCo-CEO da Graphenest
”É uma honra liderar um projeto desta dimensão estratégica. A Controlar traz para o ASTRAL três décadas de experiência em sistemas de teste eletrónico e um conhecimento profundo das exigências da indústria automóvel e de defesa. O nosso objetivo é colocar essa experiência ao serviço do desenvolvimento de uma solução verdadeiramente inovadora, que reforce a soberania tecnológica europeia e abra novos mercados para as empresas portuguesas.
João QueirósChief R&D+i Officer R&D + Innovation da Controlar
Sobre os promotores do projeto
A Controlar, promotora líder do projeto, é uma empresa sediada em Alfena (Porto) com mais de 30 anos de experiência no desenvolvimento de sistemas de teste eletrónico, robótica e automação para a indústria automóvel, com presença internacional em seis países e clientes como a Bosch, a Visteon, a Aptiv e a Continental.
A Graphenest, que também lidera o projeto, é a única empresa portuguesa com capacidade industrial inicial de produção de grafeno. Fundada em 2015 e com patentes concedidas nos Estados Unidos e Canadá, desenvolve soluções avançadas de blindagem eletromagnética para os setores de mobilidade elétrica, eletrónica e defesa, com parcerias com empresas como a Mitsubishi e a TDK Electronics.
O consórcio conta ainda com dois parceiros do sistema científico nacional. O PIEP traz a experiência industrial no desenvolvimento e produção das folhas, enquanto a Universidade de Aveiro contribui com investigação avançada em materiais magnéticos, através de três laboratórios de excelência reconhecidos internacionalmente.

